Júnior Flôr

Seja Bem Vindo(a)!

 

“Uma parte considerável da cultura é expulsa do ensino.” (Certeau)

“Rio por vezes a sós, a ver como eles estabelecem a sua superioridade teológica. Os que falam mais bárbara e grosseiramente e os que balbuciam de modo que ninguém os possa entender, julgam atingir o cume quando o público não pode seguir.” (Erasmo de Roterdam)

         A maior parte da sociedade brasileira conhece a imperiosa necessidade de se investir em Educação.

         Fato indiscutível.

         Nas últimas semanas a situação educacional passou a ser mais discutida que o natural. Nas redes sociais não se deixa de falar sobre Educação. Isto não quer dizer ser o tema o único tratado.

         Os portais passaram a publicar entrevistas com especialistas, o Jornal Nacional veiculado pela Rede Globo de Televisão apresentou uma série de reportagens sobre os problemas enfrentados pela Educação em nosso Brasil. A professora Amanda, do Rio Grande do Norte, mostrou indignação diante os baixos valores recebidos por professores em uma audiência pública e sua fala virou leitura obrigatória exposta na rede mundial de computadores.

         Inclusive o título deste vem de uma hastag que circula neste momento pelo Twitter cobrando do Governo mais investimentos em Educação. Onde se cobra o investimento de 10% do PIB em Educação.

         Não vamos negar que contribuímos à campanha dos #dezporcentodopibja.

         Mas quando se fala em Educação existe uma tendência dos envolvidos na discussão em olhar para a real e clara necessidade do Governo investir em nosso combalido setor educacional.

         Nestes pontos todos concordam. Da necessidade de investir a termos uma educação que não é vista como prioridade.

         Menos o Governo.

         Ousamos perguntar: Uma quantidade maior de investimentos trará melhor qualidade à Educação?

         Acreditamos que não.

         O problema não reside somente no quantitativo, mas no qualitativo.

         Necessário caminhar pelas palavras.

         Quando os portugueses aqui começaram a se instalar um das primeiras falas foi priorizar a Educação. Os outros governantes, cada um a sua maneira, modificaram a fala adaptando-a para o momento vivido. E a educação continuou sendo “prioridade” nos discursos imediatistas em campanhas políticas e durante as cansativas cerimônias de posse.

         No momento presente quando o mundo vive uma diferença entre as nações que não reside somente na economia (somente agora descobriram). A mesma encontra-se na qualificação de sua população em termos educacionais.

          A sociedade brasileira começou a acordar. Será?

         Não acreditamos em um despertar do berço esplêndido, mas em um momento de indignação pelos baixos índices apresentados pelo quadro educacional.

         Vejamos.

         Se me coloco favorável a um maior investimento em Educação qual o significado destas linhas?

         Entendemos que o problema educacional no Brasil não reside somente no percentual do PIB a ser investido pelo Estado. Em hipótese alguma este vem a ser o problema. Repetimos não ser o quantitativo o ponto central.

         Precisamos traçar um diagnóstico dos problemas da Educação brasileira para sentarmos e pensarmos qual remédio deve ser aplicado. Apontarmos a solução em outras palavras. E quantas doses deste remédio serão necessárias.

         Para não sermos criticados como contrários a um maior investimento na educação tomamos a precaução de afirmarmos, linhas acima, sermos favoráveis. Ponto.

         Antes de termos o diagnóstico para irmos à busca do remédio adequado podemos, dentro de nosso olhar, apontar alguns sintomas da doente educação brasileira.

         Que tal sabermos em qual partido político encontra-se filiada a Educação brasileira?

         Dependendo da região, e do partido a governar aquele território, nosso diagnóstico pode não ser tão preciso. Encontraremos cidades onde a Educação caminha a passos largos na formação do cidadão. Da mesma forma pode ocorrer de nos depararmos, na cidade vizinha, com o caos educacional. Com a fragilização dos partidos políticos no Brasil o localismo define o que vem a ser prioridade.

         Cada Governo empossado assume para si uma “teoria nova” sobre Educação. Esta posição deixa em estilhaços o processo educacional. Na realidade somente fragmentos sobram do antes praticado.

         Política partidária não é política educacional. E lutar por uma política educacional não significa necessária filiação a um partido político. Ou, como pensam alguns, obrigação de ser filiado ao sindicato. A Educação não pode ser tratada como meio a uma doutrinação política. Se a educação caminha na idéia de um ser pensante o partido na sala de aula é atraso.

         Existe ainda quem pense ser o sindicato o único caminho à luta. A questão sindical no Brasil não é nosso assunto no momento. Mesmo assim não poderíamos deixar de registrar da necessidade de revisão da mesma, e com certa urgência. O sindicalizado não pode ser visto, sem querer, lutando por uma bandeira partidária de sua vida desconhecida. Assunto para outro post.

         Enquanto não entendermos ser a luta pela educação de qualidade uma questão apartidária esta será em vão.

         A pirâmide vem a ser outro problema.

         Não falamos da pirâmide social, mas como se faz o investimento no setor educacional. Os dados que aparecem até agora apontam na direção de nosso alunado não ter condições de interpretar um texto. Isto é fato.

         Se o dito acima é de nosso conhecimento estamos a aceitar uma política de investimento equivocada.  A capacidade de investimento na Educação deve ter seu olhar para o processo de alfabetização próximo à leitura. Somente alfabetizar sem o aluno ter conhecimento do ato de ler levará ao desconhecimento da interpretação de um texto.

         Michel  de Certeau ao escrever que de “(…) um ponto de vista cultural, privilegiar a ortografia é privilegiar o passado.”

         Não é isto que estamos a assistir?

         Nos últimos dias o Brasil foi tomado por um debate nascido de um livro distribuído pelo MEC com foco na ortografia. E, ainda por cima, contendo erros gramaticais. De certa forma fez parte da sociedade despertar para o debate educacional.

         Alguns foram para a Ágora.

         O problema é maior do que os erros contidos nos livros. Além da escrita equivocada por não privilegiar a norma culta, existe foco exagerado em um ensino cimentado na poeira, digo, na ortografia. Não formaremos leitores ao dissociar a Educação da Cultura. A formação humanística do Ser não reside na parte, mas no todo apreendido.

         O topo da pirâmide demasiadamente privilegiado.

         Assistimos investimentos em expansão das Universidades. Cada vez mais espaços acadêmicos são abertos em solo brasileiro. Seria ótimo se uma pergunta não viesse à tona.

         Quem poderá ter acesso à universidade?

         Se não estamos investindo na base não conseguiremos formar o aluno com condições de enfrentar um ensino em nível superior.

         Óbvio.

         Não, não é tão óbvio quanto parece.

         Expandir as universidades virou um bom discurso de um aparente investimento em Educação. Que nos perdoem os reitores. A expansão das universidades deveria vir após uma política real de educação. E isto nós não temos. Não aqui em solo brasileiro.

         É inegável o crescimento das universidades no Brasil. Em quantidade e em algumas ilhas de qualidade. Mas não podemos viver de ilhas de excelência.

         Outro ponto de estrangulamento de nossa educação reside na grade curricular. Nas universidades, principalmente públicas, estamos com grade curricular dos anos 80, 90. As modificações no tecido social colocam como imposição que se discuta maior rapidez em adequação destas grades curriculares ao momento a se viver.

          Novos mundos exigem novas leituras.

         Algo óbvio relegado a um segundo plano. Novas leituras em um novo mundo.

         Esta adaptação a um mundo novo ocorre com maior rapidez nas universidades particulares. E não estamos aqui para criticar a universidade pública. Mas a redoma em que foram colocadas pelo MEC e a burocracia estatal.

         As universidades públicas sofrem pela ausência de uma política educacional.

         O saber. Território do poder para alguns e empreguismo para outros.

         Se quisermos realmente modificar a sociedade em que vivemos precisamos partilhar o saber. De nada adiantará produzirmos conhecimento se este continuar restrito a um grupo seleto. O território do saber não possui fronteiras e, sendo assim, deve chegar a todos.

         O amigo que visita estas linhas cansou de tantos problemas? Ainda existem outros por explorar. Mas para não nos alongaremos em demasia, ficaremos na luta do Ser contra o Ter.

         Nem uma sociedade avança quando o Ter um título é mais importante que Ser conhecedor de algo. Um detentor do saber. Este é um dos retratos mais negros de nossa educação. Existe uma priorização para quem detém títulos em detrimento de quem tem o conhecimento. Como diria Machado de Assis, “o alferes eliminou o homem.”

         Podemos afirmar, sem medo algum, que no Brasil o título eliminou o saber. Levando-nos a uma equação onde o Ter elimina o Ser.

Auto da Compadecida (Ariano Suassuna)

         Esta política de eliminação do saber acontece por necessidade das universidades de deterem em seus quadros um número X de Doutores, Y de Mestres e Z de Especialistas para reconhecimento de seus cursos por parte do MEC.

         Esta política estatal tem mostrado um resultado positivo de tal grandeza que o Brasil não possui uma Universidade entre as 100 (cem) melhores do mundo. Mesmo possuindo uma quantidade de Mestres e Doutores como nunca se viu na História brasileira.

         Mas cabe cá uma pergunta: o que o Brasil tem produzido de novo para levar o Governo a se orgulhar de nunca o país ter tantos docentes com titulação máxima?

         A pergunta carrega consigo a própria resposta.

         Somos sabedores das exceções e ilhas de conhecimento espalhadas por este território chamado Brasil. Tanto nas Universidades preocupadas com ensino, pesquisa e extensão. Bem como de Doutores, Mestres e Especialistas a buscarem algo novo cotidianamente. Validam seu título a cada publicação nova.  Digo antecipando-me aos críticos que por aqui possam aportar.

         Não tenho a verdade e nem quero a ela ser apresentado.

         Ao contrário de muitos detentores do saber e proprietários do conhecimento não quero conhecer a sereia em seu canto chamado verdade. Quem embriagado com o canto da sereia pensa realizar-se perde a capacidade de pensar.

         Quero aprender a cada dia e, neste sentido, apresento uma simples posição. Não mais que um olhar. Uma leitura, apenas.

         Estamos a fazer releituras dos clássicos sem despontarmos com algo novo.

         Isto é caminhar para um túnel sem luz ao seu final.

         Fica claro que não estamos somente a necessitar de maior investimento por parte do Estado. Urge refletir sobre os pontos falhos em nossa Educação para não perdermos gerações inteiras no futuro.

         Provocação: a estabilidade no setor público contribui para aumentar a crise no setor educacional?

         “As civilizações desabam

         Por implosão…”

         (Mário Quintana)

Implosão do Carandiru

Um Comentrio at agora.

  1. Camila disse:

    No Brasil, educação não é uma questão econômica, mas política. Num país que nasceu como colônia, a educação jamais foi priorizada. Afinal, um povo instruído contesta, exige e, sem dúvida, não era esse tipo de dor de cabeça que nossos colonizadores queriam.

    De colônia à monarquia. De monarquia a república (e incluo aqui também as ditaduras de Getúlio e dos militares) cada um dos nossos governantes herdou essa máxima e aprendeu bem a lição: uma sociedade instruída é um inimigo do governo. E nós – o povo – nos contentamos muito bem com nosso papel. Afinal, não é atoa que se vende um voto em troca de R$ 50 ou um par de sapatos novos.

    O comando de ordem agora é lutar por uma educação melhor. Será? Duvido muito. O assunto só veio à tona porque os grandes veículos de massa (vulgo “tv” e “rádio”) resolveram tocar no assunto, mas só até aparecer outra coisa interessante que venda mais. O negócio na imprensa é fazer barulho. Três semanas falando de um mesmo assunto já perde apelo ao público. E, acredite, sempre aparecerá novos assuntos.

    Exemplo disso é a recente questão do impeachment não ter sido incluso no “Túnel do tempo” do Senado. O presidente da Casa, Sarney, disse que não era uma passagem “relevante para história do país”. Prato cheio p/ imprensa! Assunto repercutido no mundo inteiro. População indignada. Três dias depois, Sarney volta atrás e coloca o quadrinho falando do impeachment na exposição. Ufa! agora sim, nossa consciência está em paz! E morreu o assunto. Quase ninguém lembrou que o Collor tinha voltado à vida política. Se o impeachment foi tão importante, porque eleger o ex-presidente p/ cargos públicos com um dos maiores percentuais de votos da eleição?

    É nessa sociedade manipulada – porque lhe é cômodo – em que você acredita? Desculpe, mas eu não…


  • RSS
  • Facebook
  • Twitter

Posts mais acessados

AMIGOS, AMIZADE.

“Desculpa a franqueza; é um direito de amigo. Até hoje ...

Algumas palavras, ap

No cotidiano, quando abrimos os olhos e buscamos a luz ...

FALAS SILENCIOSAS...

O silêncio omite, no barulho da fala, o que o ...

UMA NOITE NO DIA 25,

O dia 26 de setembro passou a ser especial para ...

ÓRFÃOS

ÓRFÃOS Mamãe, Estamos tentando, com todas as nossas forças, superar sua ausência ...