Júnior Flôr

Seja Bem Vindo(a)!

Prometeu Acorrentado

“A memória dos pobres já é por natureza menos alimentada que a dos ricos, tem menos pontos de referência no espaço, considerando que eles raramente saem do lugar onde vivem, e tem também menos pontos de referência no tempo de uma vida uniforme e sem cor.” (Albert Camus)

“Agora os homens apenas procuram o mar para se lamentarem diante da grande voz das ondas.” (José Saramago)

“…pode a verdade estar na boca das crianças, mas para a dizerem têm de crescer primeiro, e então passam a mentir…” (José Saramago)

“Andar no meio dos homens, sem ver os homens, é preciso ter a cabeça muito acima do nível da humanidade.” (Machado de Assis)

 

A sociedade em que vivemos vem, tem algum tempo, desconsiderando as pequenas coisas. Ou melhor, desconsiderando o valor das pequenas coisas.

Não estamos aqui a querer mensurar o valor entre um grande ou pequeno ato. Acreditamos nos atos, não em seus tamanhos, ditos como grandes ou pequenos.

Em tempo não muito distante, em um passado não tão longe de nosso olhar, um bom dia era coisa de grande valia. Passar por uma pessoa e não falar era falha grave. Grave, ainda mais, era não corresponder a um Bom Dia, Boa Tarde ou Boa Noite.

O que pensamos de uma sociedade a valorar apenas os grandes feitos?

O que podemos esperar de um tecido social preso a grandes nomes e datas postas como especiais?

Não estamos usar do ceticismo, e sim do realismo.

Mas é delicado olharmos para o cotidiano e vermos que simples gestos estão se perdendo ao longo do dia. Do tempo neste espaço redesenhado por este ser dito humano.

Não esperemos grandes gestos se negamos os pequenos. É uma relação simples. Não de causa e efeito como em uma discussão científica. Mas de perda de valores culturais e um olhar não dimensionado, em sua verdade, para a educação.

Onde queremos chegar?

Continuemos a caminhar com o olhar.

Não estamos a querer sair de nosso território, denominado Brasil. Mas dentro deste território, espaço delimitado, como em outros espaços demarcados vem ocorrendo uma desvalorização das pequenas coisas. Se é que um dia puderam ser chamadas de pequenas.

Ao mesmo tempo em que valoramos, com aplausos em demasia, os grandes gestos.

O que seriam estes grandes gestos?

Desde os primórdios o homem vem pautando sua vida por conquistas que venham a ser tidas chamadas de grandiosas. Quem nunca ouviu falar da Guerra de Tróia ou de Alexandre, o Grande? Com certeza deverá ter ouvido falar de Hércules e suas mitológicas façanhas em nome do Olimpo.

Tróia

Olimpo, palavra mágica a qual o homem quer ser alçado negando os pequenos gestos que pautam sua caminhada.

Saiam do caminho a ética e valores menores, diz o homem a caminho do Olimpo.

Não busques o Olimpo, busques a caminhada ao Olimpo.

Estamos negando o ato de caminhar pelo ato realizado. Queremos a amizade sem conseguimos ser amigos.

É o mesmo que querer ser amado sem amar.

O homem perdeu a noção de que a estrada é uma via de mão dupla. Assim como a vida.

As realizações cotidianas pavimentam a estrada para grandes atos. Quando um homem consegue dizer Bom Dia ele não está somente a falar Bom Dia. O homem que consegue expressar um Bom Dia expressa um traço cultural e uma relação somente construída no terreno educacional.

O respeito ao próximo em suas opiniões vem a ser, talvez, um ato de extrema grandeza para que seja necessário pedir a existência do respeito.

A expressão de uma opinião parece não mais ter valor. Bem, se a opinião for emitida por um dito grande homem se pede ao mesmo a sua palavra. Paira no ar o silêncio para que o mesmo fale.

Que silenciem os pequenos homens diante seu tamanho.

O problema reside nesta medida de valor inexistente. Quem é o grande homem? Se este existe é necessário pensar no seu contrário, o pequeno homem.

E quem seria este pequeno homem?

Seria aquele onde a sociedade não vislumbra responder a um Bom Dia ou escutar sua opinião. Não queremos entrar no terreno do que venha a ser justo, ou não.

Não nos cabe julgar a ninguém.

O problema é a nossa convivência em uma sociedade que acredita nas grandes realizações sem olhar a estrada pavimentada.

Fala-se na Guerra de Tróia sem se perguntar quem construiu a cidade. O que seria grande? A construção da cidade destruída ou a guerra que leva a destruição da cidade? Acredito que ambos os fatos tem o mesmo valor. Um lembrado, a Guerra, o outro esquecido, a construção da cidade destruída.

Deixando de lado Tróia e outros exemplos que aqui poderiam ser citados para olharmos o valor de atos ditos como menores.

Caro leitor, inexiste o ato chamado de menor, existe o ato em si.

Não podemos cobrar de uma sociedade, a brasileira, que olhe, e valorize um simples Bom Dia. Esta acredita ser o homem capaz de assinar o próprio nome um homem alfabetizado.

Nossa sociedade desvaloriza, e considera como pequeno, o ato da leitura. Não podemos, e nos tornamos impotentes, para questionar o Ministério da Educação se este vier a errar na política educacional. Se na sala de aula o professor, pessoa de tamanha grandeza, não for capaz de dizer Bom Dia ao alunado. Sendo assim, não podemos falar em educação.

Ao desprezarmos o ato da leitura por ser cansativo, para muitos vem a ser chato. Pobre Bom Dia…

Estamos a usar da expressão Bom Dia como expressão que, ao nosso olhar, vem se perdendo ao longo do tempo e em vários espaços. Ignorada simplesmente.

Perdoe-me o leitor, mas não vou adentrar ao terreno do aperto de mão.  Ato de extrema grandeza.

Queiramos, ou não, nossas vidas estão reguladas dentro do tecido social por medidas de grandeza eleitas através de parâmetros por nós estabelecidos.

E se estamos a negar os parâmetros criados não cobremos do Outro.

Estamos a adentrar numa relação social delicada, para não dizer perigosa, onde o cotidiano a conter os pequenos gestos dos ditos pequenos homens é desprezado.

Onde a opinião contrária não tem valia se não for emitida por homem de título reconhecido no tecido social.

Necessário olhar para as pequenas obras, pois delas sairão alicerces com capacidade de segurar a construção um dia sonhada.

O que fazer?

Antes de qualquer coisa…

“Cabe agora antes de tudo saber como nos relacionamos uns com os outros dentro desse estreito presente que nos restou.” (José Arthur Gianotti)

Bom dia, caro leitor!

 

 


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